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O conceito de rede social em Jane Jacobs

Jacobs Melum

Jane Jacobs parece ter sido a primeira pessoa a explorar, depois de Tocqueville, a intimidade sociológica do fenômeno que se quer captar com o conceito de capital social.

Jacobs (1961) é apontada por alguns como a primeira pessoa a usar o conceito, ou a expressão, ‘capital social’, na seguinte passagem de “Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas”:

Para a autogestão de um lugar funcionar, acima de qualquer flutuação da população deve haver a permanência das pessoas que forjaram a rede de relações do bairro. Essas redes são o capital social urbano insubstituível. Quando se perde esse capital, pelo motivo que for, a renda gerada por ele desaparece e não volta senão quando se acumular, lenta e ocasionalmente, um novo capital (Jacobs, 1961: 151)

Ao final da primeira parte desse seu livro de 1961, considerado um clássico do planejamento urbano, ela analisa “as vantagens e os pontos fortes peculiares às cidades grandes e também suas fraquezas” (Jacobs, 1961: 153). A ideia de Jacobs era que

O conjunto de oportunidades de todo tipo existentes nas cidades e a espontaneidade com que essas oportunidades e opções podem ser usadas são um trunfo – não uma desvantagem – para encorajar a estabilidade do bairro. Contudo, esse trunfo precisa ser capitalizado. Ele é desperdiçado nos lugares em que a mesmice prejudica os distritos, servindo, portanto, somente a uma faixa estreita de renda, gostos e circunstâncias familiares. Os recursos que o bairro oferece para pessoas-índice imutáveis, sem corpo, são recursos para a instabilidade. As pessoas que se encontram nele e são dados estatísticos podem permanecer as mesmas. Mas não as pessoas que se encontram nele e são pessoas. Tais lugares são eternos locais de passagem (Idem: 152-3).

Jacobs estava preocupada com os fatores que tornam “viva” uma localidade, que fazem com que ela se torne aquilo que chamava de uma “Entidade real”, com a teia de relações tramada por pessoas humanas, vivas e reais, que vivem naquela localidade:

As inter-relações que permitem o funcionamento de um distrito como uma Entidade não são nem vagas nem misteriosas. Consistem em relacionamentos vivos entre pessoas específicas, muitas delas sem nada em comum a não ser o fato de utilizarem o mesmo espaço geográfico.

Os primeiros relacionamentos que se formam em áreas urbanas, desde que haja uma estabilidade populacional nos bairros, são os que ocorrem na vizinhança e entre pessoas que têm alguma coisa em comum e integram instituições – igrejas, APMs, associações de negócios, diretórios políticos, ligas cívicas, comitês para angariar recursos para campanhas de saúde ou outras causas públicas, os naturais de tal e tal vila (associações hoje comuns entre porto-riquenhos, como já foram entre os italianos), associações de proprietários, sociedades de amigos de bairro, grupos contra injustiças e assim por diante, ad infinitum.

A profusão de organizações, na maioria pequenas, existente em quase todas as zonas relativamente estáveis de uma cidade grande, deixa qualquer pessoa tonta. Goldie Hoffman, uma das executivas de um departamento de reurbanização de Filadélfia, decidiu fazer um levantamento das eventuais organizações e instituições existentes numa pequena área lúgubre da cidade com cerca de 10 mil habitantes, designada para revitalização. Para surpresa geral, encontrou dezenove. As organizações pequenas e as organizações com fins específicos crescem nas cidades como as folhas de uma árvore e são, à sua maneira, uma manifestação impressionante da persistência e obstinação da vida.

Contudo, a etapa crucial para a formação de um distrito efetivo vai muito além disso. Deve desenvolver-se um conjunto diferente de inter-relações; são as relações ativas entre pessoas, geralmente líderes, que ampliam sua vida pública local para além da vizinhança e de organizações ou instituições específicas e proporcionam relações com pessoas cujas raízes e vivências encontram-se, por assim dizer, em freguesias inteiramente diferentes (Jacobs, 1961: 146).

Jane Jacobs está tratando de algo muito mais profundo do que a segurança pública, ao contrário do que quis salientar Fukuyama (1999: 31). Ela investiga a formação do “ser social” que chama de “Entidade real” (com ‘E’ maiúsculo):

É necessário um número surpreendentemente baixo de pessoas que estabeleçam ligação, em comparação com a população total, para consolidar o distrito como uma Entidade real. Bastam cerca de cem pessoas numa população mil vezes maior. Mas essas pessoas precisam dispor de tempo para se descobrir em umas às outras, para investir em colaboração proveitosa – e também para criar raízes nos diversos bairros menores locais ou de interesse específico (Jacobs, 1961: 147).

Surpreendentemente a passagem acima não gerou nenhuma reflexão mais fecunda, nem por parte dos leitores-admiradores de Jacobs, nem por parte dos teóricos do capital social. Mas aqui talvez esteja, ao meu ver, uma das pistas para desvendar a complexa dinâmica das sociedades humanas.

Para Jacobs são as pessoas humanas reais, “de carne e osso”, e não o seu número – ou, imagino que se possa inferir, outros fatores quantitativos que possam ser aferidos em abstração da sua pessoalidade, quer dizer, da qualidade do capital humano envolvido – que tramam o tecido social, produzindo capital social, de modo a torná-lo “vivo”, constituindo uma comunidade concreta numa dada localidade e condicionando, de uma forma sempre peculiar, o seu estado presente e o seu processo futuro.

Assim que consiga firmar-se no distrito, uma rede de ligações desse tipo, boa e forte, poderá expandir-se relativamente rápido e assumir qualquer outro feitio… As pessoas que estabelecem as ligações, assim como aquelas que formam elos menores nas ruas e organizações de interesse específico, não são de forma alguma os índices estatísticos que supostamente representam pessoas nos projetos urbanísticos e habitacionais. Pessoas-índice são uma fantasia por várias razões, uma das quais é elas serem encaradas como sempre substituíveis. As pessoas de carne e osso são únicas; investem muitos anos em relacionamentos significativos com outras pessoas únicas, e são, no mínimo, insubstituíveis. Desfeitos seus relacionamentos, destrói-se sua condição de seres sociais verdadeiros – às vezes por pouco tempo, às vezes para sempre (Jacobs, 1961: 148-9).

Jane Jacobs, portanto, não apenas usou a expressão ‘capital social’. Ela trabalhou, de fato, com o conceito de capital social, desenvolveu este conceito, aportando contribuições novas e substantivas para desvendar o processo de sua formação em comunidades. Ocupada com a vida coletiva, com o viver social, ela não “economicizou” o conceito – no sentido de transformá-lo num fator matemático que se pudesse quantificar em abstração das pessoas que, conectadas de certa maneira, logram gerá-lo – como fizeram, depois, alguns economistas e sociólogos que queriam ser levados a sério por alguns economistas, ainda que tenha usado, várias vezes, a expressão ‘acumular’ para se referir ao processo progressivo de estabelecimento daquelas conexões em rede, entre pessoas, que chamou de capital social.

Jacobs, Jane (1961). Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Fukuyama, Francis (1999). A Grande Ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

Franco, Augusto (2001). Capital Social. Leituras de Tocqueville, Jacobs, Putnam, Fukuyama, Maturana, Castells e Levy. Brasília: Millennium, 2001.