small bangs
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Emancipação da pobreza em uma sociedade-em-rede

ip per capital

Não se trata de ensinar os pobres a deixarem de ser pobres

Levei muito tempo para descobrir que o local não é somente um espaço, mas também um tempo. Isso aconteceu há 5 anos, quando estava escrevendo Small Bangs (2012). Como passei grande parte da minha vida madura – a rigor de 1993 a 2011 – envolvido diretamente com programas de indução do desenvolvimento local por meio do investimento em capital social com o objetivo de emancipar pessoas e comunidades da situação de pobreza, considero que esta foi uma descoberta tardia.

Não foram quase 20 anos no escuro, não. A partir de 2003 já comecei a considerar que os locais não são dados, pontos de partida, territórios geográficos recortados sobre um mapa e sim clusters, ou seja, redes sociais (quer dizer, pessoas interagindo, não ferramentas, tecnologias, instituições e outras entidades abstratas – mas isso eu ainda não sabia naquela época). Sabia que as redes articuladas com o propósito de configurar ambientes favoráveis às mudanças sociais que interpretamos como desenvolvimento, são pontos de chegada, objetivos a ser alcançados (e que, assim, o local é uma construção). O que eu não sabia é que é somente isso que podemos fazer para induzir o desenvolvimento: netweaving. E que essas redes são “zonas” do espaço-tempo dos fluxos (onde as redes existem realmente) e é por isso que, além de serem espaço, são também tempo.

Sim, foi só a partir de 2012 que entendi a não-contemporaneidade. Assim como não vivemos num mesmo lugar, também não vivemos num mesmo tempo. Qual o problema? O problema é que, em um mundo globalizado, defasagens temporais significam pobreza, ou seja, incapacidade (ou mesmo impossibilidade) de aproveitar (e desenvolver) as próprias potencialidades, em termos individuais (de cada pessoa) e coletivos (dos clusters de pobres que se formam – porque a pobreza clusteriza – transmitindo intergeracionalmente a pobreza: o filho do pobre terá amigos pobres e, assim, mais condições de continuar pobre).

Em 1995, cerca de 40 milhões de pessoas em todo o mundo estavam conectadas à Internet. Em 2000, esse número tinha crescido para cerca de 400 milhões e em 2016 atingiu 3,5 bilhões. Isso significa que quase metade da população global está conectada a uma única tecnologia (que permite que as pessoas se conectem e se conectem mais velozmente, quer dizer, em menos… tempo). Assim, quem está desconectado está também defasado e isso é particularmente significativo se consideramos que o espaço-tempo dos fluxos (o mundo das redes) é como uma espécie de “espaço de fase”, orientado – como na termodinâmica – por uma flecha do tempo. O lugar onde estamos pode indicar também o tempo em que vivemos.

Recente estudo de Klaus Ackermann, Simon Angus e Paul Raschky (23/01/2017) descobriu uma relação entre conectividade e produtividade econômica. Esses pesquisadores encontraram evidências de que o PIB per capita está positivamente correlacionado com o IP per capita. Assim, países com maior penetração na Internet crescem mais rápido economicamente. Eles estimam que um aumento de 10% no IP per capita corresponde a um aumento de 0,8% no PIB per capita (*).

Somente em 2006 descobri que a interatividade (quer dizer, a vulnerabilidade à interação fortuita) cresce com a conectividade que, por sua vez, cresce com o grau de distribuição da rede. Mas não tirei nenhuma consequência desse conhecimento. Teria evitado muito esforço inútil se soubesse que o fundamental é ensejar o aumento da interatividade em comunidades pobres, em vez de tentar engajar lideranças em metodologias de desenvolvimento local. Como a pobreza é uma defasagem temporal e o tempo corre mais depressa quando a interatividade aumenta, trata-se, fundamentalmente, de possibilitar que a fenomenologia da interação se manifeste com mais frequência. Para tanto, é necessário aumentar os graus de distribuição e conectividade das redes que se formam. Quando fenômenos interativos – como o clustering, o swarming, o cloning, o crunching, a reverberação, a retroalimentação de reforço (feedback positivo), o looping de recursão (e tantos outros que ainda não descobrimos) – começam a se manifestar espontaneamente e com mais frequência, são eles que efetuam as mudanças sociais que interpretamos como desenvolvimento e não a nossa vontade de promover essas mudanças usando uma metodologia, quer dizer, uma tecnologia social qualquer, quase sempre mais participativa do que interativa. Quanto maior a frequência, mais rapidamente as defasagens temporais diminuem. A contração (amassamento) do tamanho social do mundo – com a diminuição dos graus de separação – é também uma contração do tempo. Como o chamado small-world phenomenon ocorre em small-worlds networks, isso significa que a pobreza – sob esse olhar do desenvolvimento – não é insuficiência de renda e sim insuficiência de rede.

Quando percebi as defasagens do conceito de capital social – com o qual trabalhei tantos anos – do ponto de vista das redes, me dei conta de que se quisermos incrementar o capital social (aumentar o seu estoque ou adensar o seu fluxo) é necessário fazer coisas – até há pouco insuspeitadas – que não apareciam como relacionadas ao tema, como estimular a clusterização em torno de desejos congruentes, incentivar o cloning (ou o imitamento como processo de aprendizagem), ensejar condições para a manifestação de enxameamentos (flocking mesmo, sem coordenação centralizada) e, fundamentalmente, reduzir o tamanho social do mundo (crunching) ou diminuir os graus de separação (pela realização de atividades que proporcionem a multiplicação dos laços fracos).

Em termos bem práticos, para dar um exemplo de uma questão que está na ordem do dia: disponibilizar banda larga em localidades pobres terá um efeito muito mais impactante na emancipação da pobreza do que transferir recursos exigindo contrapartidas (reais ou imaginárias), obrigando as pessoas a cumprirem rituais exóticos ou a passarem por maçantes liturgias, convertendo-as em pacientes do ensino de qualquer coisa.

Não se trata – como se acredita – de ensinar os pobres a deixarem de ser pobres, seja capacitando-os para se tornarem bons empregados ou tentando modificá-los para que eles se tornem empreendedores por meio de alguma receita milagrosa ministrada em cursos de empreendedorismo. Essas intervenções só podem ajudar se as pessoas desejarem fazer isso. E se elas desejarem, procurarão meios de aprender o que é necessário para realizar os seus desejos. Assim, não se trata de ensinar o que queremos ensinar porque imaginamos que lhes será útil e sim de deixar-aprender o que elas querem aprender (não o que queremos que elas aprendam). Esta é a razão pela qual os programas de capacitação têm tão baixa efetividade: as pessoas fazem cursos e como não acham ou não criam novas oportunidades para si mesmas e os cursos não casam bem com o que elas querem fazer, então lhes empurramos mais cursos…

Ora, o desenvolvimento não pode ser levado de fora para dentro, nem de amanhã para ontem. Ele é um metabolismo da rede no presente. A questão é que, mesmo que as redes existam independentemente de nossos esforços conectivos voluntários, as pessoas só se encontrarão (e reconhecerão) como membros dessas redes na medida em que forem estabelecendo relações entre si. E, para tanto – como já escrevi no artigo Superação da pobreza – existem apenas dois caminhos: a) aumentar a conectividade geral dos ambientes onde vivem essas pessoas, possibilitando a multiplicação dos laços fracos entre elas; e b) incrementar as relações amistosas que podem surgir entre essas pessoas quando elas se conectam a partir de seus desejos congruentes para fazer qualquer coisa juntas.

(*) Cf. ACKERMANN, Klaus, ANGUS, Simon & RASCHKY, Paul (2017). The Internet as Quantitative Social Science Platform: Insights from a trillion observations. Ithaca: Cornell University, 23/01/2017. https://arxiv.org/abs/1701.05632